Xangai China
A viagem para a China começa bem antes da partida. Mas
não como qualquer outra. Começa com a impossibilidade de acreditar na
viagem. Afinal, no nosso imaginário, a China é inimaginável. Basta,
para entender isso, prestar atenção nas expressões "nem aqui nem
na China" ou "só se for na China" ou ainda "negócio
da China". Isso significa que há coisas lá que sequer passam pela
cabeça: são inteiramente estranhas e, portanto, assustadoras. As
expressões da língua nos mantêm afastados de lá.
No centro de Xangai, o que mais surpreende é o
trânsito. Carros, motos, triciclos e bicicletas ocupam o mesmo espaço
nos dois sentidos, dobram indiscriminadamente pela esquerda ou pela
direita. A regra é avançar como der, e que é necessário estar
continuamente atento para não sofrer um acidente. As torres, pela forma e
cintilação, fazem pensar em Nova York. Nos últimos seis anos, foram
construídas mais de três mil torres. É uma atrás da outra. Cor de
ouro, cor de prata, com ideogramas gigantes igualmente dourados e
prateados.
Xangai é indissociável da expressão
"novo-rico". Há mais cartazes em Xangai do que em São Paulo.
Faz pensar tanto em Nova York quanto em São Paulo. Por se tratar de um
gueto vertical, onde os edifícios mais suntuosos cotejam outros
inteiramente decadentes. O que difere é o cartaz publicitário. Pela
escrita ideogramática e pelo tamanho gigante do texto. O Bund, o cais à
beira do Huangpu, é o verdadeiro símbolo de Xangai. Também ele, pela
arquitetura neoclássica dos anos 30, lembra Nova York.
Na antiga capital imperial da China, há imóveis
decadentes e uma habitação de trogloditas. No centro, como no século
passado, um grande número de triciclos, ônibus, caminhões e carros em
péssimo estado ultrapassando-se pelos dois lados. Nas paredes da cidade,
mais anúncios do que em qualquer outro lugar. A China se lambuza de
publicidade. Como criança que nunca comeu melado. Poluição sonora e
visual. Gente sentada na calçada, em cima de um jornal ou de um banco
improvisado com quatro bambus.
Quem vai a Xian quer ver o Exército enterrado de
soldados de terracota, no mausoléu de Qin Shihuangdi, datado de mais de
dois mil anos, e tão famoso quanto a Grande Muralha. Qin Shihuangdi foi o
primeiro imperador da China. Entronado em 246 antes de Cristo, unificou o
país, impondo uma moeda e uma escrita únicas. A fim de realizar os
grandes projetos do seu império, instituiu trabalhos forçados. Foi
tirânico. Consta que os palácios do seu mausoléu tinham paredes
incrustadas de pedras preciosas e que os seus construtores foram todos
enterrados vivos para não revelar os seus segredos.
O Exército foi descoberto em 1974 por camponeses que
cavavam um poço e casualmente encontraram uma fossa com milhares de
soldados de terracota. Depois, acharam mais duas. A primeira mede 210
metros de este a oeste e 60 metros de norte a sul. Tem paredes que formam
os corredores, onde ficavam os seis mil guerreiros - soldados, arqueiros,
oficiais e generais. A segunda fossa continha mil guerreiros, e a
terceira, que parece ser o posto de comando das outras fossas, 68 soldados
e uma carruagem. O que mais surpreende é o realismo das esculturas e o
fato de cada uma ser inteiramente diferente da outra. Os homens, chineses
ou mongóis, são todos belos, porque, para integrar o exército do
imperador, eram escolhidos em função do seu aspecto físico.
O tamanho das esculturas varia de 1,70m a 2,10m e cada
uma - apesar de oca - pesa aproximadamente 150 quilos. São diferentes
porque foram feitas por diferentes artistas e, de um para o outro, o molde
diferia. Para os chineses de então, a esta vida se seguia uma outra,
subterrânea, e o imperador não quis deixar de ser, na segunda vida, o
que ele foi na primeira. Fez o exército porque, só através deste, podia
se imortalizar como imperador.